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Testemunho Moral e Liberdade Religiosa

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Departamento de Estado dos Estados Unidos
Discurso
Secretário de Estado, Michael R. Pompeo
Roma, Itália
Simpósio da Santa Sé para Promover e Defender a Liberdade Religiosa Através da Diplomacia
30 de setembro de 2020

 

SECRETÁRIO POMPEO: Bom dia a todos. 

Obrigado, embaixadora Gingrich, por essa apresentação extremamente gentil. A senhora fez um trabalho maravilhoso com este simpósio tão importante. Estou feliz por estar aqui pela segunda vez.   

Vossa Eminência, Cardeal Parolin, obrigado por estar aqui.

É ótimo vê-lo novamente, Arcebispo Gallagher.

É maravilhoso estar com muitos bons amigos, velhos amigos.

Quero dar as boas-vindas também aos outros membros do clero, aos membros do corpo diplomático que aqui se encontram e a todos os ilustres convidados. É uma honra estar aqui. Uma honra mesmo.   

Quero reconhecer especialmente muitos líderes de grupos religiosos que temos na audiência hoje. Vocês refletem a graça de Deus ao servir aos outros. Obrigado pelo que vocês fazem, e que Deus abençoe a todos.  

Também me sinto honrado por estar com pessoas que dedicaram suas vidas a serviço de Deus, em tempo integral, no ministério pastoral, vocês fazem meu trabalho parecer fácil.

O ano de 2020 marca o 75º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial na Europa, um aniversário sobre o qual tenho refletido muito durante minhas várias viagens à Europa este ano.

Essa luta de vida ou morte foi um teste severa, um campo de provas do testemunho moral. Há uma legião de histórias individuais de valor. Mas me lembro especialmente do Padre Bernhard Lichtenberg.  

Alguns de vocês podem conhecer a história, mas o Padre Lichtenberg – alguns de vocês talvez não conheçam – o Padre Lichtenberg foi um padre, na década de 1930, em Berlim que resistiu fervorosamente ao regime nazista e ajudou os judeus com finanças, conselhos e assistência para emigração enquanto o cerco nazista apertava.

Em 1938, após a Kristallnacht, ele começou a falar mais alto em nome dos judeus, proclamando na Catedral de Santa Edwiges em Berlim, abre aspas: “Lá fora, a sinagoga está pegando fogo, e aquela também é uma casa de Deus”. Fecha aspas.

O Padre Lichtenberg não parou com meras palavras. A partir de então, sem medo, ele orou em público todos os dias pelos judeus e outras vítimas da brutalidade nazista. 

Eventualmente, os nazistas o prenderam, em outubro de 1941. Eles ofereceram ao padre a possibilidade de um acordo: ele poderia ser libertado em troca de parar com sua pregação subversiva. Em vez disso, ele pediu para acompanhar os judeus e judeus-cristãos deportados para a Polônia, para que pudesse ministrar para eles.  

Em maio de 1942, cerca de oito meses depois, ele foi condenado a dois anos de prisão. Quando a sentença foi lida, perguntaram se ele tinha algo a acrescentar. Ele disse, abre aspas: “Afirmo que o estado não sofre nenhum dano porque cidadãos oram pelos judeus”. Fecha aspas.

Perto do final de sua sentença, os nazistas perceberam que nunca poderiam quebrar seu espírito. Eles ordenaram que o padre fosse enviado ao campo de concentração de Dachau, mas ele morreu no caminho antes de chegar ao destino sombrio. 

O Padre Lichtenberg deu um testemunho moral incrível e, em 2004, foi homenageado pelo Estado de Israel como um dos Justos entre as Nações, um não-judeu que arriscou a vida para salvar os judeus dos nazistas.

Hoje, enquanto pensamos naquele homem, incentivo todos os líderes religiosos a darem um testemunho moral semelhante e ousado em prol da liberdade religiosa, da dignidade humana e da paz.

Agora, como muitos de vocês sabem, quando estive aqui no ano passado, falei longamente sobre a liberdade religiosa.

Foi importante para mim participar este ano, porque a missão de defender a dignidade humana – e a liberdade religiosa em particular – continua no centro da política externa americana.

A liberdade religiosa está no coração da experiência americana. Nossos fundadores consideraram a liberdade religiosa um direito absolutamente essencial da humanidade e central para a nossa fundação. 

Eu diria que é parte integral do que o Papa João Paulo II descreveu como o “anseio universal pela liberdade” na Organização das Nações Unidas (ONU), quando falou em 1995. Bilhões de pessoas hoje – como disse a embaixadora Gingrich, as pessoas sempre buscaram adorar de acordo com suas consciências. 

Mas, infelizmente, regimes autoritários, terroristas e até mesmo secularistas e sociedades livres estão – de maneiras diferentes – pisoteando a liberdade religiosa em todo o mundo.

Muitas partes da humanidade vivem em países onde a liberdade religiosa é restrita, em lugares como o Irã, a Nigéria e Cuba, entre outros.

O Departamento de Estado gasta muitos recursos para narrar essas situações horríveis em um relatório anual que se estende por milhares de páginas.

Em nenhum lugar, entretanto, – em nenhum lugar, a liberdade religiosa está sendo mais atacada hoje do que dentro da China. Isso porque, como acontece com todos os regimes comunistas, o Partido Comunista Chinês se considera a autoridade moral final. 

O PCCh, cada vez mais repressivo, amedrontado por sua própria falta de legitimidade democrática, trabalha dia e noite para apagar a lâmpada da liberdade, especialmente a da liberdade religiosa, em uma escala terrível.

Falei um pouco sobre esse assunto no ano passado e dei atenção especial aos muçulmanos uigures de Xinjiang.

Mas eles não são as únicas vítimas. O Partido Comunista Chinês tem atacado todas as comunidades religiosas na China: igrejas protestantes, budistas tibetanos, devotos do Falun Gong e muito mais. 

É claro que nem mesmo os católicos foram poupados dessa onda de repressão:

Igrejas e santuários católicos foram profanados e destruídos.

Bispos católicos, como Augustine Cui Tai, foram presos, assim como padres na Itália. [ 1 ]

E líderes católicos do movimento de direitos humanos, principalmente em Hong Kong, foram presos.

Autoridades ordenam que os residentes substituam as imagens de Jesus pelas do presidente Mao e do secretário-geral Xi Jinping.

Todos esses fiéis são herdeiros daqueles que o Papa João Paulo celebrou em seu discurso à ONU, aqueles que “se arriscam pela liberdade, pedindo para terem uma vida social, política e econômica compatível com sua dignidade como seres humanos livres.”

Devemos apoiar essas liberdades exigidas em nossa época, como fez o Padre Lichtenberg na dele.

Agora, os Estados Unidos podem e fazem sua parte ao falar pelos oprimidos, embora nós também possamos fazer mais. Mas trabalhamos muito para esclarecer os abusos, punir os responsáveis ​​e encorajar outros a se juntarem a nós nessa luta. 

Mas, por mais que os estados-nações possam ajudar, em última análise, nossos esforços estão limitados pelas realidades da política mundial. Os países às vezes fazem concessões para promover bons resultados, líderes vêm e vão e, de fato, as prioridades mudam. 

A Igreja está em uma posição diferente. Considerações terrenas não devem desencorajar posturas baseadas em princípios e verdades eternas. E, como mostra a história, os católicos muitas vezes implantaram seus princípios ao servir gloriosamente à dignidade humana.  

O filósofo católico francês Jacques Maritain ajudou a criar a base intelectual para a Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948.

Na esteira do Concílio Vaticano II, na década de 1960, os bispos da Polônia e da Alemanha Ocidental abriram caminho para a reconciliação entre seus países.

E todo estudioso sério da Guerra Fria agora reconhece que o Papa João Paulo II desempenhou um papel central no início da revolução de consciência que derrubou a Cortina de Ferro.

João Paulo II também não teve medo. Ele desafiou o autoritarismo da América Latina e ajudou a inspirar a transição democrática. 

O Papa emérito Bento XVI descreveu a liberdade religiosa como “um elemento essencial de um estado constitucional” e, de fato, “a prova de fogo para o respeito a todos os direitos humanos”.

E assim como o Papa Bento XVI, o Papa Francisco falou com eloquência sobre a “ecologia humana” essencial para sociedades decentes.

Em meu próprio país, movimentos para acabar com a escravidão no século 19 e expandir os direitos civis dos afro-americanos no século 20 foram em grande parte liderados por cristãos de muitas denominações que apelaram para a herança judaico-cristã de nossa nação, assim como para nossos princípios fundamentais da fundação dos EUA.

Esses exemplos notáveis ​​de ação cristã pela liberdade, justiça e dignidade humana envergonham aqueles que estão tentando tirar a fé de todos os lugares públicos.

Mas ainda mais importante, eles devem nos inspirar hoje, e especialmente inspirar aqueles entre vocês que têm autoridade espiritual em qualquer fé para serem os líderes de nossa época.

O Papa Francisco incentivou a Igreja a estar “permanentemente em estado de missão”. Essa é uma esperança que toca este protestante evangélico aqui. Acredito, como o Santo Padre, que aqueles de nós que receberam o dom da fé cristã têm a obrigação de fazer o melhor para abençoar os outros. 

Ser uma Igreja “permanentemente em estado de missão” tem muitos significados. Certamente, um deles é ser uma Igreja permanentemente em defesa dos direitos humanos básicos. 

Uma Igreja permanentemente em oposição aos regimes tirânicos.

Uma Igreja permanentemente empenhada em apoiar aqueles que desejam correr “o risco da liberdade” de que falou o Papa João Paulo II, especialmente, mais especialmente onde a liberdade religiosa é negada, limitada ou mesmo esmagada.

Como cristãos, todos sabemos que vivemos em um mundo imperfeito. Isso significa que aqueles que são responsáveis ​​pelo bem comum devem às vezes lidar com homens perversos e, na verdade, com regimes perversos. Mas, ao fazê-lo – ao fazê-lo, os estadistas que representam democracias nunca devem perder de vista as verdades morais e a dignidade humana que tornam a própria democracia possível.  

O mesmo deve acontecer com os líderes religiosos. Os líderes religiosos devem compreender que ser sal e luz muitas vezes significa exercer um testemunho moral corajoso. 

E esse chamado ao testemunho se estende a todas as religiões, não apenas aos cristãos e católicos. É para líderes de todas as religiões – na verdade, em todos os níveis. 

É minha esperança fervorosa que os líderes muçulmanos falem pelos uigures e outros muçulmanos oprimidos na China, incluindo os cazaques étnicos e os quirguizes.

Os líderes judeus também devem defender a comunidade judaica, que está cada vez menor no Iêmen.

Os líderes cristãos têm a obrigação de falar em nome de seus irmãos e irmãs do Iraque, da Coréia do Norte e de Cuba.

Faço um apelo a todos os líderes religiosos para que encontrem coragem para enfrentar a perseguição religiosa contra suas próprias comunidades, assim como o Padre Lichtenberg fez contra membros de outras religiões.

Todos os homens e mulheres de fé estão sendo chamados para exercer um testemunho moral contra a perseguição aos fiéis. Na verdade – estamos aqui hoje para falar sobre liberdade religiosa – o próprio futuro da liberdade religiosa depende de seus testemunhos morais. 

Já faz cerca de 20 anos, nesta mesma semana, que o Papa João Paulo II canonizou 87 fiéis chineses e 33 missionários europeus mortos na China antes de o atual regime comunista tomar o poder.

Na ocasião, ele disse o seguinte: “A Igreja pretende apenas reconhecer que aqueles mártires são um exemplo de coragem e consistência para todos nós, e que eles honram o nobre povo chinês”. 

Homens e mulheres de coragem em todo o mundo, correndo aquele “risco pela liberdade”, continuam lutando pelo respeito ao direito de culto, porque suas consciências exigem.

O Papa João Paulo II deu testemunho do sofrimento de seu rebanho e desafiou a tirania. Ao fazer isso, ele demonstrou como a Santa Sé pode mover nosso mundo em uma direção mais humana, como quase nenhuma outra instituição. 

Que a Igreja e todos aqueles que sabem que devemos prestar contas a Deus sejam ousados assim ​nos dias de hoje. Que todos sejamos ousados assim ​​em nossa própria época. 

Obrigado.

E que Deus abençoe cada um de vocês que estão aqui hoje.

Obrigado.

[1] assim como padres e leigos. 


Esta tradução é fornecida como cortesia e apenas o texto original em inglês deve ser considerado oficial.
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